Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Relações verdadeiras (continuação e fim)

Limit I, by Negative Feedback, DeviantART

(Primeira parte aqui)


-Muito bem. Você disse um monte de palavras bonitas até agora. E eu acho que na verdade tendo a concordar com você...

-...

-... só que... isso traz um problema.

-Problema?

-É... eu lhe explico, vamos lá: agora quem vai fazer o exercício de suposição sou eu.

-Certo.

-Realmente, assumir um relacionamento por pena, por misericórdia ou piedade, só porque a outra pessoa pede, parece-me um tiro n’água. Como você bem disse; é tudo mentira. No limite, a vida dupla e ambígua nos sufocaria num sofrimento cruento como uma jaula, ou uma caixa pequena e escura, sem ar, dentro da qual ficaríamos trancados.

-É, é isso mesmo.

-Muito bem. Mas aí eu vejo um problema; eu acho que você se contradiz.

-Como é?

-Acho que você se contradiz. Se tudo isso que você diz é verdade, e se você realmente se importa com a integridade e coerências de seus princípios, palavras e ações; se você valoriza a honestidade... eu não consigo entender...

-Não consegue entender o quê?

-Como é que você continua vivendo?

-...!

-A vida para você já perdeu a graça faz tempo. Nada mais dela você espera, ela só lhe traz enjôo e raiva, não há mais entusiasmo... em suma, você se cansou dela, não sente a menor paixão por ela, suportá-la está, a cada que dia que passa, mais insuportável. Você não a ama. E, no entanto, continua com ela. Isso não é hipocrisia?

-... ... ...

-E então...?

-... se eu morresse... muitos sofreriam com isso.

-Ah, eu imaginei que fosse dizer isso. Então, você vive porque os outros querem que você viva. Você continua com seu sofrimento e sufocado na sua mentira, mas eles ficam satisfeitos com a normalidade do rumo de suas próprias vidas. Você não comete um suicídio que abalaria esse cenário artificial de bem-estar das pessoas que você ama. Muito altruísta, mas completamente falso, não?

-... ... ...

-Pois é. No fim das contas, por pena, misericórdia e compaixão, você assumiu a mais importante e mais séria de todas as relações. Não importa sob qual ângulo, é lamentável.

-...

-Só me responda mais uma coisa. Se eles não aguentam, por que é que você tem que aguentar?

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Lembranças do Atari

Fuçando em blogs da vida, cheguei neste excelente site (que deve ser óbvio para a nerdizada, mas eu não conhecia, tá?). Ele traz jogos do Atari para se jogar ali, na hora, no java (ahem, acho). Enfim, adorei! E logo me vieram um monte de lembranças da minha infância, das quais vou tratar aqui.

Antes de começar, é importante dizer que Atari não é da minha época. Tenho atualmente 24 anos, minha época começa com Master System e Alex Kidd, que na minha memória de criança, aparecem como muito superiores (e tenho dito!).

Vamos lá, então. Primeiramente, é impossível não falar do controle do Atari; base quadrada, um único botão vermelho e um direcional em bastão. Um nerd mais gabaritado do que eu pode confirmar ou corrigir o que vou dizer agora, mas salvo engano meu, esse conceito - que rende piadas infames - de joystick é coisa do Atari; os controles do Master System e os do Nintendo já eram compostos de direcionais achatados acionados por pressão (de novo, alguém imais credenciado pode também me fornecer o nome técnico disso). A moda do direcional em bastão não parece ter pegado, mas o nome ficou, de modo que os joysticks de hoje não têm mais nenhum stick, a não ser aqueles atrofiadinhos R3 e L3, que são um tanto quanto retrô, digamos.

Eu joguei Atari com alguns dos meus primos mais velhos, e acho que um vizinho mais rico (o que é mera força de expressão; no Aricanduva não tinha rico, por definição). E lembro especialmente de dois jogos. De um, no entanto, não me recordo do nome; era de avião e a tela andava, tínhamos que dar tiro nos inimigos e escapar de seus ataques e alguns obstáculos. Outro, que certamente figura entre os mais clássicos, era Enduro. Foi o primeiro que busquei jogar no site, o que é contraditório, visto que minha lembrança dele não era lá muito boa. E por quê?

De primeira, não dá para entender; jogando agora o Enduro, eu fiquei fascinado. É um jogo envolvente, temos que ir sempre em frente, e aquele cenário que muda constantemente conforme o tempo passa é simplesmente fantástico. Vamos à neve, vemos o pôr-do-sol, dirigimos de noite, em meio à neblina... realmente fabuloso para um equipamento com tão poucos recursos. Joguei bem um tempinho, lembrei que o objetivo do jogo é chegar em primeiro lugar antes do dia amanhecer (detalhe: começamos em ducentésimo – isso mesmo, o último de 200 – Fórmula 1 é fichinha). Cada vez que se bate no carro da frente ou se toca na margem da pista, perde-se velocidade e os carros passam você de novo. Desafiador. Bem, perdi de primeira, cheguei mais ou menos na septuagésima posição. Obviamente, não desisti, e na segunda tentativa, finalmente vi as bandeiras de vitória tremulando na tela pouco antes do raiar do dia. Fiquei feliz, mas não entendi porque o jogo não acabou nessa hora... continuei desviando dos carros à frente, pensando que fossem retardatários para os quais eu esfregava minha vitória... Mas eis que, com o céu azul de novo, o contador muda. De 1º vai a 300º. O jogo recomeça, cem posições mais difícil. E eu perco nesse segundo dia, claro.

Essa eu tirei do blog do Battlenerds!


Então me lembrei porque eu não gostava de Enduro. Era um jogo eterno. Meus primos mais velhos diziam: “quando eu terminar a corrida, é sua vez” ou “quando terminar a corrida, a gente põe o cartucho do avião”. Óbvio que quando meus primos jogavam, eles, viciados e donos do console, duravam alvoradas e alvoradas. Mas quando chegava na minha vez, eu perdia logo, só para vê-los jogar "mais umazinha". No fim, ficava eu lá, criança, sofrendo com o lento passar do tempo de um carro de corrida. Certeza; Enduro vem do verbo, em inglês, to endure. Mas não para quem joga, e sim para quem assiste. Eu, que não tinha videogame (só vim a ter um muitos anos depois, um Master System recauchutado, e foi quando começava a era dos CDs), sentia perder momentos preciosos de brincadeira, porque logo voltaria para casa para brincar de desenhar no sulfite, longe da magia do videogame. Provavelmente nunca senti com tanta intensidade a máxima do “cada minuto a mais é um minuto a menos”. Olha... videogames podem traumatizar uma criança, viu... Hein, qual era mesmo o jogo de avião?

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

Raso

-Não, é que eu iria dizer uma coisa... mas deixa, vai.

-Ora, diga de uma vez.

-Para quê? Ninguém mais liga; é como as mortes do Jornal Nacional, como vimos no Hotel Ruanda; as pessoas olham, dizem "problema" e continuam o seu jantar como se nada tivesse acontecido.

-Por que não diz para mim? Se você não contar, não vou saber se é mesmo assim como diz.

-É que eu só queria tentar um mundo mais amplo... mais amplo que essa viela que é a ideologia de classe média. Para ela, basta uma coisa só - dinheiro - e então se consegue ao mesmo tempo dignididade, respeito e felicidade. Mas não é assim...

-Você não precisa viver desse jeito, ué.

-"Não preciso"... O que é a alternativa? A sociedade nos engole, as pessoas nos devoram. E eu sou um só contra a turba.

-Ora essa. Vá e faça a diferença, ao invés de ficar com nhémnhémnhém.

-Eu disse.... Mas enfim; o dia em que eu acreditar que sozinho farei a diferença, terei outra vez me transformado num romântico. Olhe para trás, olhe quanta História! São tantas pessoas... por que será que ninguém teve a ideia de "ir e fazer a diferença", como você diz? Que é que aconteceu, os antigos eram todos maus ou estúpidos?

-Ah... mas devem ter feito... você é que não percebeu.

-Puxa, que bela diferença, hein...

-Escute, não olhe para o lado ruim das coisas. Tente focar no que é positivo. Isso vai te aliviar, e você poderá ver com mais clareza. Confie.

-Por favor. Para mim simplesmente não faz sentido deixar de olhar para ver melhor. O problema não vai sumir da realidade se eu sumir com ele da minha vista. Escute; da mesma maneira que não quero voltar a ser um romântico, não quero voltar a ser um alienado.

-Você não tem jeito.

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

Relações verdadeiras



-Você se envolveria amorosamente com uma pessoa por pena?

-Claro que não. Isso é absurdo...

-Ué, por quê?

-A seriedade de uma relação amorosa não dá espaço para sentimentos de pena, misericórdia ou compaixão. Assumir uma relação dessas por outros motivos que não o amor, mesmo, é um ato de desrespeito para com o outro lado e uma mentira para si.

-Ah, sim, mas vamos imaginar que o outro lado não se importe em ser amado de verdade.

-Não?

-Convenhamos; muitas pessoas não estão nem aí para isso. Sinceridade, eu digo. Basta adotar uma cartilha de comportamento básico, fingir algumas coisas perante os outros, agir de acordo com tais e quais atitudes. Se isso é honesto ou não, para pouca gente importa...

-Há! Mas eu me importo, e muito!

-... tudo bem, tudo bem, que ótimo. Mas agora o importante não é você, é o outro lado; suponha que o outro lado não se importe com sentimentos genuínos, somente com aparências.

-... ai, ai... certo...

-Então? Você assumiria um relacionamento amoroso por pena, compaixão ou misericórdia?

-... não!

-E por quê?

-Se a pessoa não se importa com atitudes íntegras, eu não tenho nada a ver com isso, e muito menos sou obrigado a viver hipocritamente também.

-Mesmo se a pessoa em questão for linda? Imagine que tenha um corpão, seja uma gostosura só...

-... isso não me comove...

-... que ela seja tão vislumbrante que todos que vissem vocês dois juntos suspirassem de arrebatamento, felicidade, realização, inveja... já pensou? Você teria tudo o que todos querem em termos de relacionamento.

-Claro que não! Não quero assumir um relacionamento para mostrar aos outros. Quero um relacionamento que me acrescente felicidade! Nesse caso que você diz, eu teria status, seria invejado, mas não teria o que realmente é importante, o amor!

-Não teria num primeiro momento, você quer dizer. Vai que, depois de tanto receber carinho da pessoa amada, você não se apaixone por ela também?

-... ... ...

-Isso! Você não assumiria, nesse caso? Um relacionamento amoroso por pena, mesmo sabendo que no futuro, você pode vir a gostar de verdade da pessoa, amá-la genuinamente? Nesse caso, se ela desejar, recusar esse pedido seria burrice, não? Uma oportunidade imperdível desperdiçada. E agora?

Pensa um pouco.

-Não. Um sentimento verdadeiro não pode ser comprado, nem mesmo à prestação, está entendendo?

-Tem certeza do que está falando?

-Absoluta. Assumir uma relação séria dessas sem ser movido por algo genuíno é bobagem. Que é isso...

-Puxa... difícil ouvir isso hoje de alguém.

-E tem mais: se essa pessoa é tão maravilhosa assim, certamente outros já a estarão desejando antes que me deseje. Por que essa pessoa fenomenal não aceitou o pedido desses pretendentes, então?

-Hum... bom ponto. Mas aí você já está assumindo dados a mais no raciocínio. Se uma pessoa vem e lhe pede, por mais fenomenal que seja, nada garante que ela tenha recebido propostas anteriores. Talvez dezenas de pessoas já a tenham desejado, mas nenhuma dela tenha efetivamente proposto. A suposição aqui é que o que houve de efetivo foi: a pessoa veio e lhe propôs. Não fuja disso imaginando outras situações que não existem neste exemplo.

-Quem é que está fugindo, ô, infeliz? Você é que está tentando me convencer de que é certo assumir um relacionamento amoroso por pena, mas isso só é certo para você, não para mim. Veja, eu não tenho nada contra alguém que faça isso; se a pessoa quer fazer essa aposta perigosa, que vá e faça, ela é soberana de suas próprias ações. Para começo de conversa, você tem razão naquele ponto: a maioria das pessoas não se importa com integridade, sinceridade, verdade. Se a mentira é doce, vão optar por ela sem pensar duas vezes. Agora, para mim, para a minha pessoa, isso é errado. Eu não vou viver de hipocrisia, não dá, para mim é horrível. Se você quer isso, vá em frente, não vou lhe censurar. Vou apenas lhe dizer o que eu acho, que é tudo isso que falei. Cada um que viva como quiser; eu também vou buscar viver do meu jeito, entendeu?

-Hehehe... parece que falou bonito, hein?

-Sem essa agora, vai...


(Continua aqui)