A.mor.fi.na
Por vezes já me questionei sobre o significado do nome que intitula este blog e pelo qual assino estes textos. Há até mesmo um longo e enfadonho post sobre isso, já aqui publicado. Mas embora naquela ocasião eu tivesse ficado satisfeito, hoje me incomodo novamente. Porque tal nome, “nefelibata”, parece realmente me definir em todos os sentidos, inclusive aqueles dos quais não gosto. É, tal como eu mesmo, uma contradição, um conflito, e talvez mesmo um absurdo.
“Nefelibata”, aquele ou o que caminha sobre as nuvens. Artisticamente soa bem, mas é um nome impensável para alguém que, como eu, escolheu praticar a filosofia marxista, escolheu aquele caminho à esquerda. A compreensão do mundo para além de si pode se reter numa interpretação ou, como disse o próprio Marx, avançar numa transformação; numa atividade, numa práxis. Para tanto, é preciso efetivamente estar no mundo, buscar vivê-lo, e não fugir dele para o céu da metafísica e das ideologias de recusa da realidade sensível. Ou seja, é preciso não ser nefelibata - por mais atraente que seja a ideia de viver espiritualmente nas nuvens, nas alturas, na claridade e na superioridade.
Minha concepção de marxismo, de posição crítica e de esquerda honesta torna imprescindível esse engajamento com o mundo. E o mundo são as pessoas. Não nos importa se os metais dilatam com o calor, se a gravitação na Terra tem aceleração de 9,8m/s² ou se seres vivos precisam se alimentar para sobreviver. Isso é natureza, e em certa medida, são coisas imutáveis, que surgiram assim por uma série de acasos. O que nos importa é: se o metal dilata, como podemos moldá-lo para fazer ferramentas? Se a gravitação é assim, como podemos nos valer dela para produzir conhecimento? Se passamos fome, como alimentar a todos? O mundo que nos importa, desse modo, não é muito a natureza, as leis da física ou da química. O mundo que nos interessa são as pessoas que nele vivem, como elas vivem.
E eis minha arapuca. Eu tendo à misantropia. Fico tal como Einstein, que estranhava seu forte engajamento em questões sociais quando ele mesmo não se sentia intimamente parte da sociedade. Desde pequeno, sempre me senti mais diferente do que os diferentes. Vivi uma adolescência antirromântica, e também uma juventude reclusa, sem beber, nem fumar, nem me drogar, nem dançar. Não por forças que pudessem me oprimir, como uma religião ascética, mas por minha própria vontade. Hoje vejo pessoas que não há muito criticavam duramente comportamentos que hoje praticam (bebidas, cigarros, promiscuidade). “Caíram no mundo”, viraram só mais gente nas estatísticas, na PEA, no Ibope. Não que seja um problema; eu só me sinto meio solitário. Mas, novamente, não deixa de ser por minha própria vontade, na verdade, isso nem é novidade, estou bem acostumado. Como não quero celebrar os rituais de congregação das pessoas, eu acabo só, misantropo. E por que então, eu me preocupo tanto com essas mesmas pessoas?
Há alguns anos, eu responderia que é por amor. Por amor às pessoas e à humanidade, eu me preocupo e desejo seu bem. Mas agora, acho que isso é um erro. Na verdade, vejo que se algo me move hoje, ainda que bem fracamente, não é amor, e sim ódio. Eu não acredito que este mundo, estas pessoas, tenham salvação. No geral, o fraco irá trair seu irmão para obter os favores do forte, e conseguindo estar na posição do forte, oprimirá o fraco por sadismo e vingança. As exceções a essa regra, embora lindas e inestimáveis, são insignificantes; não vão mudar a própria regra. A estrutura hoje, como diz Marx, é a da opressão, da extorsão do que o ser humano tem de melhor, que é sua história. E não podemos ir contra isso; já que para comer precisamos comprar comida, para ter dinheiro precisamos trabalhar. E trabalhando para ganhar dinheiro, jogamos mais lenha na fornalha e mais graxa nas engrenagens do sistema. Ainda que não queiramos, colaboramos para a reprodução deste mundo que nos prostitui e escraviza a todos – só que a uns mais cruelmente que a outros. Ou seja, nosso campo de ação individual é muito escasso. Como pensar maior? Não sabemos. Não temos ideia de como funciona uma “consciência coletiva”, porque já estamos afogados numa cosmologia que não é só egoísta, é mais que isso, é individualista, incapaz de entender ou mesmo imaginar o mundo sem ser nos átomos dos indivíduos.
Ainda que este mundo se salve de algum modo que mesmo eu não consigo conceber, duvido que viverei o bastante para isso. Na verdade, nem quero. Acho que nossa expectativa de vida atual já é mais que suficiente para passar a existência em mundo tão vil pelas nossas próprias mãos. Ou seja, tudo tem um fim; e tudo também deve ter um fim, para nosso próprio bem. Mas divago. Eu dizia que a força que me move hoje é o ódio, e não o amor. Por quê? Porque o amor fracassou retumbantemente. O amor se transformou em morfina do mundo, amamos a uns poucos para esquecermo-nos de todo o resto, resto para o qual reservamos a desgraçada indiferença. Mesmo Drummond vai chamá-lo de “exílio na Terra”, paradoxalmente. E é justamente por sermos indiferentes a todo o resto é que o amor tem que nos servir de consolo por vivermos num mundo amaldiçoado por nós mesmos, em que tudo para fora de nossas casas e nossos laços próximos (ou nem isso) é estranho, aversivo, assustador, adversário e inimigo. Definitivamente, não é esse amor que diz “dane-se” para o próximo desconhecido que me move. Não mais.
Resta que o que me move é o ódio. O nojo dessa atitude egoísta. O ódio que sinto da humanidade por optar por esse caminho. O ódio que sinto de mim mesmo por fazer parte dessa humanidade e não conseguir nem ao menos deixar de colaborar para esse cenário miserável a partir do momento em que busco um salário e compro comida. Ódio por somente conseguir odiar. Busco ser gentil e oferecer amor às pessoas não mais porque eu acredite que isso levará a alguma coisa. Mas simplesmente porque me recuso a ser complacente com a lógica de reprodução das injustiças e dos podres do mundo. Não tenho mais nenhum objetivo, toda a ação que tomo morre nela mesma, são objetivos fúteis, não perduram no tempo. É uma revolta particular, individual, insignificante e impotente. Uma profissão de fé, de fé cega, um “creio porque é absurdo”, um trabalho de Sísifo. Uma tragédia grega. Além disso... viver de ódio não é viver. Eis a derradeira, fatal contradição.
“Nefelibata”, aquele ou o que caminha sobre as nuvens. Artisticamente soa bem, mas é um nome impensável para alguém que, como eu, escolheu praticar a filosofia marxista, escolheu aquele caminho à esquerda. A compreensão do mundo para além de si pode se reter numa interpretação ou, como disse o próprio Marx, avançar numa transformação; numa atividade, numa práxis. Para tanto, é preciso efetivamente estar no mundo, buscar vivê-lo, e não fugir dele para o céu da metafísica e das ideologias de recusa da realidade sensível. Ou seja, é preciso não ser nefelibata - por mais atraente que seja a ideia de viver espiritualmente nas nuvens, nas alturas, na claridade e na superioridade.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
(Carlos Drummond de Andrade, “De Mãos Dadas”)
Minha concepção de marxismo, de posição crítica e de esquerda honesta torna imprescindível esse engajamento com o mundo. E o mundo são as pessoas. Não nos importa se os metais dilatam com o calor, se a gravitação na Terra tem aceleração de 9,8m/s² ou se seres vivos precisam se alimentar para sobreviver. Isso é natureza, e em certa medida, são coisas imutáveis, que surgiram assim por uma série de acasos. O que nos importa é: se o metal dilata, como podemos moldá-lo para fazer ferramentas? Se a gravitação é assim, como podemos nos valer dela para produzir conhecimento? Se passamos fome, como alimentar a todos? O mundo que nos importa, desse modo, não é muito a natureza, as leis da física ou da química. O mundo que nos interessa são as pessoas que nele vivem, como elas vivem.
E eis minha arapuca. Eu tendo à misantropia. Fico tal como Einstein, que estranhava seu forte engajamento em questões sociais quando ele mesmo não se sentia intimamente parte da sociedade. Desde pequeno, sempre me senti mais diferente do que os diferentes. Vivi uma adolescência antirromântica, e também uma juventude reclusa, sem beber, nem fumar, nem me drogar, nem dançar. Não por forças que pudessem me oprimir, como uma religião ascética, mas por minha própria vontade. Hoje vejo pessoas que não há muito criticavam duramente comportamentos que hoje praticam (bebidas, cigarros, promiscuidade). “Caíram no mundo”, viraram só mais gente nas estatísticas, na PEA, no Ibope. Não que seja um problema; eu só me sinto meio solitário. Mas, novamente, não deixa de ser por minha própria vontade, na verdade, isso nem é novidade, estou bem acostumado. Como não quero celebrar os rituais de congregação das pessoas, eu acabo só, misantropo. E por que então, eu me preocupo tanto com essas mesmas pessoas?
Há alguns anos, eu responderia que é por amor. Por amor às pessoas e à humanidade, eu me preocupo e desejo seu bem. Mas agora, acho que isso é um erro. Na verdade, vejo que se algo me move hoje, ainda que bem fracamente, não é amor, e sim ódio. Eu não acredito que este mundo, estas pessoas, tenham salvação. No geral, o fraco irá trair seu irmão para obter os favores do forte, e conseguindo estar na posição do forte, oprimirá o fraco por sadismo e vingança. As exceções a essa regra, embora lindas e inestimáveis, são insignificantes; não vão mudar a própria regra. A estrutura hoje, como diz Marx, é a da opressão, da extorsão do que o ser humano tem de melhor, que é sua história. E não podemos ir contra isso; já que para comer precisamos comprar comida, para ter dinheiro precisamos trabalhar. E trabalhando para ganhar dinheiro, jogamos mais lenha na fornalha e mais graxa nas engrenagens do sistema. Ainda que não queiramos, colaboramos para a reprodução deste mundo que nos prostitui e escraviza a todos – só que a uns mais cruelmente que a outros. Ou seja, nosso campo de ação individual é muito escasso. Como pensar maior? Não sabemos. Não temos ideia de como funciona uma “consciência coletiva”, porque já estamos afogados numa cosmologia que não é só egoísta, é mais que isso, é individualista, incapaz de entender ou mesmo imaginar o mundo sem ser nos átomos dos indivíduos.
Ainda que este mundo se salve de algum modo que mesmo eu não consigo conceber, duvido que viverei o bastante para isso. Na verdade, nem quero. Acho que nossa expectativa de vida atual já é mais que suficiente para passar a existência em mundo tão vil pelas nossas próprias mãos. Ou seja, tudo tem um fim; e tudo também deve ter um fim, para nosso próprio bem. Mas divago. Eu dizia que a força que me move hoje é o ódio, e não o amor. Por quê? Porque o amor fracassou retumbantemente. O amor se transformou em morfina do mundo, amamos a uns poucos para esquecermo-nos de todo o resto, resto para o qual reservamos a desgraçada indiferença. Mesmo Drummond vai chamá-lo de “exílio na Terra”, paradoxalmente. E é justamente por sermos indiferentes a todo o resto é que o amor tem que nos servir de consolo por vivermos num mundo amaldiçoado por nós mesmos, em que tudo para fora de nossas casas e nossos laços próximos (ou nem isso) é estranho, aversivo, assustador, adversário e inimigo. Definitivamente, não é esse amor que diz “dane-se” para o próximo desconhecido que me move. Não mais.
Resta que o que me move é o ódio. O nojo dessa atitude egoísta. O ódio que sinto da humanidade por optar por esse caminho. O ódio que sinto de mim mesmo por fazer parte dessa humanidade e não conseguir nem ao menos deixar de colaborar para esse cenário miserável a partir do momento em que busco um salário e compro comida. Ódio por somente conseguir odiar. Busco ser gentil e oferecer amor às pessoas não mais porque eu acredite que isso levará a alguma coisa. Mas simplesmente porque me recuso a ser complacente com a lógica de reprodução das injustiças e dos podres do mundo. Não tenho mais nenhum objetivo, toda a ação que tomo morre nela mesma, são objetivos fúteis, não perduram no tempo. É uma revolta particular, individual, insignificante e impotente. Uma profissão de fé, de fé cega, um “creio porque é absurdo”, um trabalho de Sísifo. Uma tragédia grega. Além disso... viver de ódio não é viver. Eis a derradeira, fatal contradição.



