Sábado, Julho 04, 2009

Falta de educação

Se no capitalismo, ter é mais valioso que ser, eu diria que no Brasil, como poucos podem efetivamente ter, torna-se fundamental parecer. Como os brasileiros detestam pobres (ainda que eles mesmos sejam esses pobres), quanto mais se ostenta sinais comuns à “elite”, mais parecidos com essa elite as pessoas se sentem, e isso é o que vale. Não importa se o carrão tem 36 prestações a pagar com suor danado que não deixa grana para manutenção, estacionamento ou combustível. Não importa que aquela roupa ou bolsa sejam falsificadas, que aquele vinho na adega tenha suco de uva dentro da garrafa. O que importa é aparentar ser da elite, dar um jeitinho de ostentar sinais da elite. E um desses sinais é, claramente, a educação - que aqui infelizmente só é obtida por meio de altas somas de dinheiro.

Em outras palavras: não sei em relação aos outros países, mas aqui no Brasil existe um enorme preconceito contra pessoas burras. Ou melhor; contra pessoas que não reproduzem um padrão de conhecimento tido como correto e superior, e são então tidas como burras. Saber mexer no encanamento de uma casa ou em sua parte elétrica é super importante para as nossas vidas, e, no entanto, valorizamos mais o conhecimento um advogado que nos passa a perna. Aqui existe um absurdo conceito de burrice e inteligência absolutas; sempre dizemos “fulano é inteligente”, “cicrano é burro”, assim, sem contexto algum. Ora, um pé-de-roça que jamais sentou num banco de escola pode muito bem dar uma solução rápida e eficaz para um problema prático, enquanto um doutor pode muito bem não saber fritar um ovo. Quem é burro e quem é inteligente nessas situações? Responder a isso significa buscar compreender de verdade a inteligência de alguém, testando-a na prática; e não ficar dar uma sentença prévia às qualidades de alguém só porque tem ou não tem um diploma, por exemplo.

Esse preconceito contra pessoas que não possuem uma educação como a da elite se reflete muito bem em dois vídeos abaixo, os dois do mundo do futebol. Um é uma entrevista com o jogador brasileiro Anderson (que joga na equipe inglesa do Manchester United); o outro é uma entrevista com o atual técnico da seleção sul-africana, o também brasileiro Joel Santana (ex-Flamengo).





Fizeram até um vídeo do “funk do Joel”.



O pessoal tira um sarro enorme dos dois, só porque o inglês deles não é igual ao de um Lorde de Buckingham ou Westminster. Eu gostaria de ouvir, na raça, na hora, o inglês de todos os que criticam ambos. E perguntar se eles seriam capazes de falar assim com o mesmo tempo de estudo. Mas isso ainda seria, no fundo, concordar que existe algo de execrável em não saber falar bem inglês. E isso é simplesmente absurdo.

Por que as pessoas hoje acham que inglês é “básico” e mesmo “necessário” para a educação de alguém? Isso na verdade é parte de uma ideologia burguesa que reduz o sentido de “educação” para “preparo para o mercado de trabalho”. Saber falar inglês hoje simplesmente dá mais chances de emprego, isso é inegável, mas também é só isso. Contudo, vejam só que curioso... alguém aqui acha que Anderson ou Joel Santana estão mal-empregados? Provavelmente, só nesses meses em ficou como técnico da África do Sul, Joel Santana ganhou mais dinheiro do que a maioria dos seus críticos no Youtube vão conseguir juntar durante a vida toda. E sem saber falar o inglês da boca da rainha. Fora do argumento financeiro, não existe nenhuma razão para elevar o inglês acima do chinês, do grego ou do russo – e eu me pergunto qual crítico do Anderson e do Joel saberia dar uma indefectível entrevista em qualquer desses outros idiomas. Eles conseguiram sucesso em suas carreiras não porque sabiam inglês, e sim porque são competentes no que fazem, pelo menos o bastante para que seus patrões não hesitem em pagar-lhes vultosos salários.

Assim, é realmente estranho ver a indignação das pessoas com os dois. Por quê? Eles conseguiram o prêmio final da cartilha da burguesia e da classe média: são profissionais competentes e, mais importante do que isso, milionários. Eu só consigo entender essa bronca geral pelo seguinte fato: não saber falar inglês é um sinal de pobreza, por isso é detestável. Ou alguém aqui acharia ridícula a entrevista de um brasileiro na Ucrânia ou na Turquia? Ninguém acha, até mesmo porque é raro achar um brasileiro que entenda ucraniano ou turco – e não nos envergonhamos por isso.

Eu poderia ouvir alguém dizer “mas se o cara vai trabalhar num país estrangeiro, deve saber pelo menos falar a língua do local”. Primeiramente, isso é mentira. Nem toda profissão no exterior exige profundo conhecimento da língua. Zico fez um trabalho ótimo no Japão e não é nenhum proficiente; existem intérpretes para isso desde a Torre de Babel. Em segundo lugar, convido os engraçadinhos que fizeram o “funk do Joel” a ouvir esta segunda entrevista:



Alguém aí entende perfeitamente o inglês do entrevistador? Ele é um jornalista sul-africano, e eu diria que seu inglês está longe do padrão teatral shakespeariano. Não dá para fazer um funk dele também? Claro que não, seria ridículo; o cara está falando a língua dele de verdade, como é falada lá. E pelo visto, tanto ele quanto o Joel se entendem bem. Isso significa que a função do idioma, que é comunicar, foi cumprida satisfatoriamente. E como diz Marcos Bagno (autor de um estudo interessante sobre “preconceito linguístico”), o idioma tem variações próprias de cada lugar, profissão, idade e classe social. Zombar de alguém que se comunica de maneira diferente de um padrão pretensamente correto é nada menos do que uma forma de discriminação social mascarada. Mascarada no mito de uma educação que não considera o bom trato do ser humano antes de uma regra de gramática. Mas é o Brasil-sil-sil: país das aparências, e, como já disse o Veríssimo, país em que “fomos sempre governados por homens letrados, muitos deles intelectuais de nome, que conseguiram construir o país mais desigual e injusto do mundo sem cometer um erro de concordância”.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Limite

Reach, I-am-BAM, DeviantART


"Por que algumas baleias, mesmo depois de devolvidas, insistem em encalhar?"

Uma vez, precisávamos mover o sofá. Fomos nós dois fazer isso, mas só eu era capaz. Por um momento, irritei-me, mas depois reconsiderei. Se alguém simplesmente não tem força, não é justo irritar-se por isso. Cada um tem sua limitação, simples assim e ponto final.

Minha mãe sempre foi intolerante ao consumo do leite. Tomava leite e enjoava, vomitava. Levou muita bronca por isso; afinal, onde já se viu criança que não gosta de leite? Era frescura, achavam. Outros não podem comer camarão, essa iguaria tão gostosa. Outros, não suportam carne de porco. Alguns podem sofrer sérios problemas ao comer biscoitos com glúten. Mas não é porque querem. Eles simplesmente não toleram isso. E diabéticos? Cada um tem sua limitação, simples assim e ponto final.

Depois, considero aquela pessoa que está num leito de hospital, à beira da morte. Eventualmente, ela morre. Num primeiro momento, a decepção e a dor nos irritam. Afinal de contas, tudo o que desejamos é que a pessoa viva, mas ela, desgraçada, vai e nos inventa de morrer. Por que nos desobedecem? Besteira. Todos morrem um dia, das mais variadas causas. Nem sempre é possível vencer a morte. Cada um tem sua limitação, simples assim e ponto final.

Tudo isso costuma ser compreendido com facilidade pelas pessoas com um mínimo de instrução. No entanto, embora elas aceitem tudo isso, parecem não querer entender aqueles que são fracos em relação à vida, intolerantes à vida, limitados à vida. É a ditadura da felicidade; como se viver, e ser feliz, fosse a obrigação de cada um, seu dever, e fosse vergonhoso falhar nisso.

Entretanto, viver é como cair em queda livre de um prédio muito alto. Fatalmente, o chão chegará, antes para uns, depois para outros, mas chegará para todos. Alguns, contudo, podem simplesmente virar-se de costas para ele e apreciar a queda como fazem os paraquedistas. Mas pode acontecer de isso simplesmente não ser divertido. Afinal, nada é unânime, com exceção do chão. Qual é a vantagem de forçar alguém a fingir que gosta da brincadeira? E se a pessoa simplesmente não for forte o bastante para suportar a sensação de queda? E se a pessoa simplesmente sofrer de intolerâncias e alergias àquilo? E se a pessoa simplesmente julgar seu sofrimento inútil e quiser abreviá-lo, como o paciente que decide pela eutanásia? Não há essa liberdade? Não?

Tudo bem. Isso nem é lá novidade. A liberdade de escolher qualquer coisa nunca foi regra para a gravidade do mundo. Não existe justiça alguma, mas pelo menos existe previsibilidade e segurança. Nada que surpreenda. Ainda que, eventualmente, possa impressionar.

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Sono e prelúdio

Sleep my child, de pnomoqoq, DeviantART


O despertador toca. Abre então o celular e, com um botão, reprograma-o para tocar de novo, dali a cinco minutos.

O despertador toca. Abre então o celular e, com um botão, reprograma-o para tocar de novo, dali a cinco minutos.

O despertador toca. Abre então o celular e, com um botão, reprograma-o para tocar de novo, dali a cinco minutos...

...

Desliga-o, enfim. Decide dormir mais. Reprograma-o para uma hora depois.

O despertador toca outra vez. Desliga-o definitivamente. Para que iria acordar?

Com a luz vespertina por trás das cortinas, diz para si "dormi demais".

No dia seguinte, de novo. Acorda mais tarde. No dia seguinte, e seguinte, e seguinte... mais tarde... mais tarde...

-Dormi demais...

Até que um dia dorme demais. Demais mesmo para poder dizer que dormira demais. Se pudesse contrariar a ordem das coisas e acordar de volta, sentiria um pouco de raiva. "É assim, tão simples? Por que ficamos tão ansiosos?". Mas não, continua dormindo, demais para poder voltar a pensar. Demais...

Sexta-feira, Junho 19, 2009

O vocabulário da malandragem

José Carioca, retirado daqui

Uma vez ouvi que a linguagem era a expressão mais complexa da cultura de um povo. Tendo a concordar, embora nunca tenha tentado esgotar as possibilidades dessa afirmação. Contudo, é ilustrativo que os ingleses tenham variadas formas para dizer que "chove", que o alemão seja chamado de a "atual língua da filosofia" possuindo um alto grau de especificidade, ou que os japoneses tenham um verbete específico para "morte por excesso de trabalho" (karoshi). Queria saber se é verdadeira aquela história dos esquimós terem dezenas de palavras para dizer "neve" ou "branco", porque eu já ouvi que sim e já li que não é bem isso...

De qualquer maneira, acho que a maior prova de que o a linguagem reflete a cultura pode ser buscada no nosso próprio português do Brasil. Peguemos um aspecto da nossa cultura, a famosa "cordialidade". Que outro lugar do mundo tem tantas palavras para dizer essa mesma coisa como nós temos? Aí vai a lista que consegui montar:

Obs.: considero o diminutivo cabível a muitas palavras da lista (p. ex. "jeito e jeitinho") como a mesma palavra, então nem vou listar.


- Fraude; ilicitude; desonestidade; deslealdade; jeito; maracutaia; falcatrua; trambique; tramoia; ardil; esquema; parada; rolo; negócio; gambiarra; truque; trama; enganação; armação; mutreta; lance; manha; artimanha; artifício; embuste; engodo; trato; acordo; vigarice; plano; sacanagem; burla; intrujice; pilantragem; enrolação; malícia; malemolência; e, por fim, mas não menos importante... malandragem.


E por aí vai. Deixei de fora as expressões ("puxar o tapete", "passar para trás", "dar um golpe", "aplicar uma rasteira" etc.), porque senão iria dar muito trabalho. Enfim, conhecem alguma palavra que deixei de fora? (Ou discordam de alguma que pus aí?)

Obs. 2: muitas palavras aí em cima não foram encontradas por este dicionário online de Portugal...