Falta de educação
Se no capitalismo, ter é mais valioso que ser, eu diria que no Brasil, como poucos podem efetivamente ter, torna-se fundamental parecer. Como os brasileiros detestam pobres (ainda que eles mesmos sejam esses pobres), quanto mais se ostenta sinais comuns à “elite”, mais parecidos com essa elite as pessoas se sentem, e isso é o que vale. Não importa se o carrão tem 36 prestações a pagar com suor danado que não deixa grana para manutenção, estacionamento ou combustível. Não importa que aquela roupa ou bolsa sejam falsificadas, que aquele vinho na adega tenha suco de uva dentro da garrafa. O que importa é aparentar ser da elite, dar um jeitinho de ostentar sinais da elite. E um desses sinais é, claramente, a educação - que aqui infelizmente só é obtida por meio de altas somas de dinheiro.
Em outras palavras: não sei em relação aos outros países, mas aqui no Brasil existe um enorme preconceito contra pessoas burras. Ou melhor; contra pessoas que não reproduzem um padrão de conhecimento tido como correto e superior, e são então tidas como burras. Saber mexer no encanamento de uma casa ou em sua parte elétrica é super importante para as nossas vidas, e, no entanto, valorizamos mais o conhecimento um advogado que nos passa a perna. Aqui existe um absurdo conceito de burrice e inteligência absolutas; sempre dizemos “fulano é inteligente”, “cicrano é burro”, assim, sem contexto algum. Ora, um pé-de-roça que jamais sentou num banco de escola pode muito bem dar uma solução rápida e eficaz para um problema prático, enquanto um doutor pode muito bem não saber fritar um ovo. Quem é burro e quem é inteligente nessas situações? Responder a isso significa buscar compreender de verdade a inteligência de alguém, testando-a na prática; e não ficar dar uma sentença prévia às qualidades de alguém só porque tem ou não tem um diploma, por exemplo.
Esse preconceito contra pessoas que não possuem uma educação como a da elite se reflete muito bem em dois vídeos abaixo, os dois do mundo do futebol. Um é uma entrevista com o jogador brasileiro Anderson (que joga na equipe inglesa do Manchester United); o outro é uma entrevista com o atual técnico da seleção sul-africana, o também brasileiro Joel Santana (ex-Flamengo).
Fizeram até um vídeo do “funk do Joel”.
O pessoal tira um sarro enorme dos dois, só porque o inglês deles não é igual ao de um Lorde de Buckingham ou Westminster. Eu gostaria de ouvir, na raça, na hora, o inglês de todos os que criticam ambos. E perguntar se eles seriam capazes de falar assim com o mesmo tempo de estudo. Mas isso ainda seria, no fundo, concordar que existe algo de execrável em não saber falar bem inglês. E isso é simplesmente absurdo.
Por que as pessoas hoje acham que inglês é “básico” e mesmo “necessário” para a educação de alguém? Isso na verdade é parte de uma ideologia burguesa que reduz o sentido de “educação” para “preparo para o mercado de trabalho”. Saber falar inglês hoje simplesmente dá mais chances de emprego, isso é inegável, mas também é só isso. Contudo, vejam só que curioso... alguém aqui acha que Anderson ou Joel Santana estão mal-empregados? Provavelmente, só nesses meses em ficou como técnico da África do Sul, Joel Santana ganhou mais dinheiro do que a maioria dos seus críticos no Youtube vão conseguir juntar durante a vida toda. E sem saber falar o inglês da boca da rainha. Fora do argumento financeiro, não existe nenhuma razão para elevar o inglês acima do chinês, do grego ou do russo – e eu me pergunto qual crítico do Anderson e do Joel saberia dar uma indefectível entrevista em qualquer desses outros idiomas. Eles conseguiram sucesso em suas carreiras não porque sabiam inglês, e sim porque são competentes no que fazem, pelo menos o bastante para que seus patrões não hesitem em pagar-lhes vultosos salários.
Assim, é realmente estranho ver a indignação das pessoas com os dois. Por quê? Eles conseguiram o prêmio final da cartilha da burguesia e da classe média: são profissionais competentes e, mais importante do que isso, milionários. Eu só consigo entender essa bronca geral pelo seguinte fato: não saber falar inglês é um sinal de pobreza, por isso é detestável. Ou alguém aqui acharia ridícula a entrevista de um brasileiro na Ucrânia ou na Turquia? Ninguém acha, até mesmo porque é raro achar um brasileiro que entenda ucraniano ou turco – e não nos envergonhamos por isso.
Eu poderia ouvir alguém dizer “mas se o cara vai trabalhar num país estrangeiro, deve saber pelo menos falar a língua do local”. Primeiramente, isso é mentira. Nem toda profissão no exterior exige profundo conhecimento da língua. Zico fez um trabalho ótimo no Japão e não é nenhum proficiente; existem intérpretes para isso desde a Torre de Babel. Em segundo lugar, convido os engraçadinhos que fizeram o “funk do Joel” a ouvir esta segunda entrevista:
Alguém aí entende perfeitamente o inglês do entrevistador? Ele é um jornalista sul-africano, e eu diria que seu inglês está longe do padrão teatral shakespeariano. Não dá para fazer um funk dele também? Claro que não, seria ridículo; o cara está falando a língua dele de verdade, como é falada lá. E pelo visto, tanto ele quanto o Joel se entendem bem. Isso significa que a função do idioma, que é comunicar, foi cumprida satisfatoriamente. E como diz Marcos Bagno (autor de um estudo interessante sobre “preconceito linguístico”), o idioma tem variações próprias de cada lugar, profissão, idade e classe social. Zombar de alguém que se comunica de maneira diferente de um padrão pretensamente correto é nada menos do que uma forma de discriminação social mascarada. Mascarada no mito de uma educação que não considera o bom trato do ser humano antes de uma regra de gramática. Mas é o Brasil-sil-sil: país das aparências, e, como já disse o Veríssimo, país em que “fomos sempre governados por homens letrados, muitos deles intelectuais de nome, que conseguiram construir o país mais desigual e injusto do mundo sem cometer um erro de concordância”.
Em outras palavras: não sei em relação aos outros países, mas aqui no Brasil existe um enorme preconceito contra pessoas burras. Ou melhor; contra pessoas que não reproduzem um padrão de conhecimento tido como correto e superior, e são então tidas como burras. Saber mexer no encanamento de uma casa ou em sua parte elétrica é super importante para as nossas vidas, e, no entanto, valorizamos mais o conhecimento um advogado que nos passa a perna. Aqui existe um absurdo conceito de burrice e inteligência absolutas; sempre dizemos “fulano é inteligente”, “cicrano é burro”, assim, sem contexto algum. Ora, um pé-de-roça que jamais sentou num banco de escola pode muito bem dar uma solução rápida e eficaz para um problema prático, enquanto um doutor pode muito bem não saber fritar um ovo. Quem é burro e quem é inteligente nessas situações? Responder a isso significa buscar compreender de verdade a inteligência de alguém, testando-a na prática; e não ficar dar uma sentença prévia às qualidades de alguém só porque tem ou não tem um diploma, por exemplo.
Esse preconceito contra pessoas que não possuem uma educação como a da elite se reflete muito bem em dois vídeos abaixo, os dois do mundo do futebol. Um é uma entrevista com o jogador brasileiro Anderson (que joga na equipe inglesa do Manchester United); o outro é uma entrevista com o atual técnico da seleção sul-africana, o também brasileiro Joel Santana (ex-Flamengo).
Fizeram até um vídeo do “funk do Joel”.
O pessoal tira um sarro enorme dos dois, só porque o inglês deles não é igual ao de um Lorde de Buckingham ou Westminster. Eu gostaria de ouvir, na raça, na hora, o inglês de todos os que criticam ambos. E perguntar se eles seriam capazes de falar assim com o mesmo tempo de estudo. Mas isso ainda seria, no fundo, concordar que existe algo de execrável em não saber falar bem inglês. E isso é simplesmente absurdo.
Por que as pessoas hoje acham que inglês é “básico” e mesmo “necessário” para a educação de alguém? Isso na verdade é parte de uma ideologia burguesa que reduz o sentido de “educação” para “preparo para o mercado de trabalho”. Saber falar inglês hoje simplesmente dá mais chances de emprego, isso é inegável, mas também é só isso. Contudo, vejam só que curioso... alguém aqui acha que Anderson ou Joel Santana estão mal-empregados? Provavelmente, só nesses meses em ficou como técnico da África do Sul, Joel Santana ganhou mais dinheiro do que a maioria dos seus críticos no Youtube vão conseguir juntar durante a vida toda. E sem saber falar o inglês da boca da rainha. Fora do argumento financeiro, não existe nenhuma razão para elevar o inglês acima do chinês, do grego ou do russo – e eu me pergunto qual crítico do Anderson e do Joel saberia dar uma indefectível entrevista em qualquer desses outros idiomas. Eles conseguiram sucesso em suas carreiras não porque sabiam inglês, e sim porque são competentes no que fazem, pelo menos o bastante para que seus patrões não hesitem em pagar-lhes vultosos salários.
Assim, é realmente estranho ver a indignação das pessoas com os dois. Por quê? Eles conseguiram o prêmio final da cartilha da burguesia e da classe média: são profissionais competentes e, mais importante do que isso, milionários. Eu só consigo entender essa bronca geral pelo seguinte fato: não saber falar inglês é um sinal de pobreza, por isso é detestável. Ou alguém aqui acharia ridícula a entrevista de um brasileiro na Ucrânia ou na Turquia? Ninguém acha, até mesmo porque é raro achar um brasileiro que entenda ucraniano ou turco – e não nos envergonhamos por isso.
Eu poderia ouvir alguém dizer “mas se o cara vai trabalhar num país estrangeiro, deve saber pelo menos falar a língua do local”. Primeiramente, isso é mentira. Nem toda profissão no exterior exige profundo conhecimento da língua. Zico fez um trabalho ótimo no Japão e não é nenhum proficiente; existem intérpretes para isso desde a Torre de Babel. Em segundo lugar, convido os engraçadinhos que fizeram o “funk do Joel” a ouvir esta segunda entrevista:
Alguém aí entende perfeitamente o inglês do entrevistador? Ele é um jornalista sul-africano, e eu diria que seu inglês está longe do padrão teatral shakespeariano. Não dá para fazer um funk dele também? Claro que não, seria ridículo; o cara está falando a língua dele de verdade, como é falada lá. E pelo visto, tanto ele quanto o Joel se entendem bem. Isso significa que a função do idioma, que é comunicar, foi cumprida satisfatoriamente. E como diz Marcos Bagno (autor de um estudo interessante sobre “preconceito linguístico”), o idioma tem variações próprias de cada lugar, profissão, idade e classe social. Zombar de alguém que se comunica de maneira diferente de um padrão pretensamente correto é nada menos do que uma forma de discriminação social mascarada. Mascarada no mito de uma educação que não considera o bom trato do ser humano antes de uma regra de gramática. Mas é o Brasil-sil-sil: país das aparências, e, como já disse o Veríssimo, país em que “fomos sempre governados por homens letrados, muitos deles intelectuais de nome, que conseguiram construir o país mais desigual e injusto do mundo sem cometer um erro de concordância”.



